Selvagem

O Regresso tem cara de filmão, parece filmão, mas na verdade não é um dos melhores filmes do ano e nem mesmo um dos melhores filmes de Alejandro G. Iñárritu, ainda mais depois de um ano de Birdman.

Entre todos os diretores deste ano, um dos que mais conquistou destaque e gerou expectativa foi o mexicano Alejandro G. Iñárritu. Super aclamado por Birdman, o diretor regressa (com o perdão do trocadilho) com um filme que mistura elementos do Western tradicional, com a sua assinatura bastante peculiar e uma fotografia de tirar o fôlego!
Agora assim, esqueça tudo o que você sabe sobre Western. Ou melhor, enquanto você assiste a esse filme, deixe-se lembrar do que o western representa em sua mente. Que tal as referências? Bang Bang? Ou se preferir lembre-se do aclamado Onde os fracos não tem vez. Lembrou? Pois é, a grande e talvez principal 'inovação' no filme de Iñárritu, foi o de colocar nesse lugar, quase inusitado de belo, um gênero que, há algum tempo não foi revisitado de maneira mais 'ousada'. Sim, tivemos Jango Livre há pouco tempo e também o já citado remake de Onde os fracos não tem vez, mas nenhum dos dois brincou de transformar a fotografia em seu principal recurso, ou mesmo dar à história uma outra cara que não fosse o faroeste.
Sim, é evidente que Alejandro bebeu muito na fonte do italiano Sergio Leone, o 'cara' que incorporou o psicologismo nos personagens de western, principalmente ao narrar uma história, basicamente, em cima das expressões de Leonardo DiCaprio e na fotografia bela de um ambiente inóspito e conflituoso (sendo tipo uma metáfora da vida do personagem de Leo), porém, neste momento, é preciso ser um pouco mais do que severa em dizer que o roteiro de O Regresso não lhe faz jus. Nem ao diretor. Nem à fotografia. Nem ao filmão que poderia ter sido.

Penso eu, que a partir do momento em que você pode resumir a história de um filme de duas horas em três linhas, justamente por ser flat e por não ter camadas, esse filme perde o potencial do que poderia ter sido. Porque poderia ter sido muito mais! Sempre poderia ter sido! Tanto é que se você parar para pensar nos aspectos visuais de O Regresso, perceberá que ele guarda verdadeiros momentos de glória, entre as câmeras participantes, os olhares dos personagens e os enquadramentos em plano aberto. O visual é estonteante, pena que não prende.
Sendo bem sincera, achei o filme tão mono, que chegou a ser chato.
Mas vamos lá, para quem está curioso, O Regresso conta a história de vingança de Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), que depois de ter sido atacado por um urso, ver seu filho ser morto e ser abandonado pelos companheiros de expedição, traça uma verdadeira caçada atrás do seu algoz, Fitzgerald (Tom Hardy). E bom, basicamente o filme é isso. Sério mesmo. 

Nas duas horas que se seguem, entre as câmeras de 360º de Iñárritu, eventuais planos detalhes, muitos planos abertos, cheios de contemplação (nossa e do personagem), é desenvolvida uma atuação brilhante por parte de Leonardo DiCaprio, sendo este um dos melhores trabalhos de sua carreira. O desafio de estar fisicamente destruído, juntamente com a jornada desolada que o personagem trava deram a oportunidade de Leo mostrar um lado ainda mais intenso da sua capacidade artística, que perspassa mais pela entrega de um personagem que só tem um fio de sanidade e um pensamento em mente. 
Acredito que pela hibridação de um tempo cronológico a um tempo psicológico, de modo que eles se confundem, nós ficamos bem mais agoniados com o desenrolar da trama, uma vez que é impossível dizer exatamente quanto tempo se passou e há quanto tempo estamos sentados na cadeira. Tente resistir ao ímpeto de olhar o relógio ou checar o celular. Aproveite para se deliciar com a direção de arte desse filme, que ensina uma coisa ou outra sobre cor e sobre o famoso "filmar sob o risco do real", que Comoli tanto falava. Está certo que ele falava de documentário, mas filmar a céu aberto e com toda aquela natureza, definitivamente, é está a mercê do que vai acontecer.
Quase sem diálogos, podemos dizer que o filme se concentra no lado animalesco das coisas, carnal, na sua selvageria e necessidade de sobreviver e manter a quem se ama vivo. Recheado de metáforas visuais, somos tão ursos quanto aquele que nos ataca, sendo esta mensagem muito bem passada pela edição sonora, que inebria a gente com os gemidos de DiCaprio, o farfalhar das plantas, o cavalgar dos cavalos e os grunhidos da natureza.


Pitacos: Um dos filmes que mais está concorrendo em categorias, O Regresso foi indicado à 12. Como favorito eu diria que é, nas estatuetas de: Melhor Ator, Melhor Fotografia, Melhor Maquiagem e Cabelo e Melhor Edição de Som.
Confira a lista completa dos indicados

Um comentário

Unknown disse...

Leonardo é, sem dúvidas, meu ator favorito. Muitas vezes assisto filmes apenas para vê-lo aturar e com esse não será diferente. Não sou muito fã de filmes a não ser que sejam de terror ou determinados romances. Se tratando de Leo, assisto qualquer coisa porque minha admiração por ele ultrapassa qualquer gênero. Adorei sua resenha!
Beijo grande,
https://cafevodkaeliteratura.blogspot.com.br/